Devo deixar meu filho com a família?  

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Na hora de escolher quem vai cuidar do seu filho enquanto você trabalha, uma das opções mais apreciadas é a de contar com a ajuda de familiares. Afinal, conhecer bem as pessoas que estarão com a criança garante tranqüilidade. Mas, apesar do lado bom, alguns fatores devem ser considerados. Conheça as vantagens e desvantagens dessa opção de cuidado.   Como existe uma relação de afinidade por parentesco, os pais sentem-se seguros em deixar o filho com a família, já que sabem que a pessoa responsável realmente se interessa pela saúde, felicidade e bem-estar da criança.

 
Para muitos casais, essa condição representa uma vantagem indiscutível em relação a outras opções, como a contratação de uma babá ou a inscrição da criança em uma creche ou escola infantil. Além disso, quando se trata de alguém da família, os pais em geral têm mais acesso a informações sobre a história da pessoa e seus hábitos.
 

Uma das principais preocupações dos pais que recorrem a outras soluções é que, ao deixarem seus filhos durante o dia todo aos cuidados de outras pessoas, é natural que as crianças adotem valores passados por quem cuida delas, o que nem sempre coincide com os conceitos da família.

 
Outro ponto que costuma agradar aos pais é o fato de a criança passar o dia na própria casa, o que não ocorre se a opção for um berçário ou uma creche. Cuidada por uma pessoa da família, a criança permanece em seu próprio ambiente ou na casa da pessoa responsável, um espaço considerado mais acolhedor do que um ambiente institucional.
 

Finalmente, um aspecto que muitos pais levam em consideração é a proporção de adultos para cada criança. Mesmo que o casal tenha mais de um filho e o familiar tome conta de ambos, a atenção é bem maior do que em uma creche ou escola, estabelecimentos nos quais, em geral, um adulto se ocupa de seis ou sete crianças.


Com menor contato com outros colegas, reduzem-se as probabilidades de contágio de viroses, resfriados (e as conseqüentes dores de ouvido) tão comuns entre crianças que passam o dia em grupo.

 
Mas a vantagem mais óbvia, sem dúvida, é o custo: embora a maioria das pessoas que recorre aos cuidados de alguém da família costume oferecer algum tipo de compensação (financeira ou de outra natureza), em geral o gasto final é bem inferior à mensalidade de um berçário ou ao salário de uma babá.

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E quais são as desvantagens?

 
Infelizmente, deixar o filho com os familiares também tem aspectos negativos. Em geral, o contato estreito com a pessoa que toma conta de seu filho dificulta o estabelecimento de um relacionamento profissional.
   Isso pode provocar algumas situações difíceis. Por exemplo, alguns familiares, sobretudo os mais velhos, acreditam deter mais conhecimento sobre a educação e os cuidados com as crianças. Com isso, podem ignorar as recomendações dos pais no que se refere à alimentação, educação e sono do bebê.

 
Esse tipo de atitude não só afeta a autoridade dos pais, como confunde a criança – o que pode trazer desentendimentos entre a família. Para reduzir esse tipo de problema, os pais devem definir com clareza o que querem e determinar as regras desde o início.

 
Outra questão que pode trazer complicações refere-se à remuneração. Em alguns casos, os pais oferecem um valor em dinheiro para não parecer que estão tirando vantagem da situação, mas não raro o familiar recusa a oferta – embora quisesse aceitá-la. Quando isso acontece, uma das conseqüências possíveis é o uso constante de “indiretas” e insinuações que acabam desagradando os pais.

 
E, mesmo que os pais combinem uma remuneração com o familiar que se ocupa da criança, muitos se sentem em dívida em relação à pessoa, o que pode deixá-los menos dispostos a defender as próprias crenças em relação à educação do filho.

 
Se um familiar de mais idade – como a mãe ou tia de um dos pais, por exemplo – for o escolhido para a tarefa, a falta de energia pode ser uma desvantagem. Ainda que a pessoa tenha todas as condições de cuidar de um bebê, talvez não disponha da energia necessária para correr atrás de uma criança em fase de exploração.

 
Se a pessoa que cuida de seu filho (familiar ou não) não tiver energia para explorar novas maneiras de divertir e estimular a criança (ou até mesmo de protegê-la contra possíveis acidentes), avalie a possibilidade de matriculá-la em uma creche ou escolinha, talvez antecipando um pouco sua ida para o convívio com os coleguinhas.

 
Muitas crianças de dois, três ou quatro anos aprendem e se desenvolvem muito com a sociabilização, um recurso nem sempre disponível para quem é cuidado por um alguém da família.

 
Finalmente, ao contrário do que ocorre com as creches, escolas maternais e berçários, esse tipo de cuidado não é controlado pelos organismos do governo. Por isso, é essencial que os pais realmente confiem na pessoa a quem transferem o cuidado com os filhos e não tenham dúvidas quanto à segurança, à limpeza e ao conforto do ambiente.

 
Consultoria: Mônica Gazmenga, enfermeira.

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Como a angústia das mães brasileiras com a segurança
compromete o desenvolvimento das crianças

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Ser mãe no Brasil é… dizer não, ainda que com o coração apertado, quando a babá pede para passear com a criança na pracinha do bairro. Não desgrudar os olhos da janela na primeira vez que seu filho pede para ir sozinho à padaria da esquina. Inventar atividades dentro de casa (no máximo lá embaixo, no playground do prédio) para protegê-lo dos riscos da rua. Encher-se de aflição ao deixar o pequeno em uma festinha. Não é exagero: as mães brasileiras estão entre as mais preocupadas do mundo – 65% delas reconhecem que, por causa de suas próprias ansiedades, não deixam os filhos brincar fora de casa. Elas só perdem em aflição para as mães turcas (83%), de acordo com uma pesquisa da Unilever feita com 1 500 mães de meninos e meninas de 1 a 12 anos, de dez países – de Estados Unidos, Inglaterra e França a Turquia, Índia e Tailândia. Do temor de seqüestros e assaltos ao simples medo de o filho se machucar, as brincadeiras ao ar livre são um tormento para as mães brasileiras. Mas elas vivem um dilema: embora evitem que seus filhos brinquem fora de casa, reconhecem que o contato com outras crianças, as atividades na rua e a independência são fundamentais para o crescimento saudável deles. Segundo o levantamento, sete em cada dez se preocupam com o fato de que os pequenos passam muito pouco tempo brincando fora. “A criança está sendo privada da oportunidade de brincar, de se divertir, de aprender a partir da própria curiosidade”, escreveram os autores do estudo, o professor de psicologia Jerome Singer e a pesquisadora Dorothy Singer, ambos da Universidade Yale, nos Estados Unidos.

 

A insegurança das mães brasileiras, bem acima da média global, que é de 48%, é compreensível. Brasil, África do Sul e Índia estão entre os dez países com as mais altas taxas de seqüestro. Nas principais capitais brasileiras, onde o índice de furtos, roubos e assassinatos é altíssimo, a conseqüência mais evidente é o pânico da exposição. Mas há um limite de razoabilidade para esse tipo de preocupação. Pais excessivamente protetores geram crianças ansiosas e inseguras. Não se trata, obviamente, de deixar os pequenos soltos na rua, sem nenhuma supervisão. O problema hoje é que muitos pais, sob o argumento de que o mundo é extremamente violento, nem mais permitem a seus filhos atravessar a rua sozinhos ou andar de ônibus. “A criança precisa enfrentar a vida, com todas as suas vicissitudes. Do contrário, corre o risco de ficar extremamente dependente”, diz a psicopedagoga Maria Angela Barbato Carneiro, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O mesmo vale para o temor generalizado de que as crianças se machuquem quando brincam fora de casa. Convenhamos, afastá-las do risco ou optar pelo playground com piso emborrachado não as estimula a se defender dos perigos. “Eliminar do desenvolvimento infantil a brincadeira livre e descompromissada prejudica o desenvolvimento físico e intelectual dessas crianças”, afirma Maria Angela.

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 Porque seus filhos brincam menos, uma em cada seis mães tem receio de que as crianças de hoje sejam privadas de sua infância. No Brasil, 86% das mães têm essa preocupação. “Embora eu tenha tido uma infância bastante diferente e livre, no interior de São Paulo, não deixo minhas filhas brincarem na rua”, conta a empresária Neusinha Farina, de 36 anos, mãe de três meninas de 10, 8 e 3 anos. “Prefiro os parques fechados, onde elas ficam mais seguras. É a realidade delas”, afirma. Há ainda outro tipo de preocupação materna que também ajudou a alçar as brasileiras às posições de liderança: o medo de o filho adoecer, contraindo vírus e bactérias pela convivência com outras crianças. E eis aqui um contra-senso. Cerca de 70% das brasileiras ouvidas consideram que sujar-se e entrar em contato com vermes é uma experiência valiosa para os pequenos. Ainda assim, elas evitam os espaços públicos. Brincar com terra, areia e água, ao contrário do que muitas mães imaginam, torna o sistema imunológico das crianças mais resistente. Além disso, como bem reconhecem as mães entrevistadas nesta pesquisa, brincar em parques e praças é a atividade que melhor proporciona a formação de vínculos com o filho.

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Como a aflição materna influi diretamente na quantidade de tempo que os filhos passam dentro de casa, é inevitável que isso acabe por colocá-los diante de um aparelho de televisão. Desde muito cedo, eles se tornam dependentes de TV, vídeos e computadores. Oito em cada dez mulheres relatam que seus filhos vêem televisão com freqüência – especialmente se as crianças forem maiores, entre 7 e 12 anos. Não se trata de condenar esse tipo de atividade. Mas o ideal, dizem os especialistas, é que o passatempo se resuma a cerca de uma hora por dia. Bem menos do que a média atual dos meninos e meninas brasileiros, que passam três horas e meia diárias colados a uma tela. Esse problema é ainda maior em famílias com poucas crianças – quanto mais filhos em casa, mais eles brincam fora, mostra o estudo. Por fim, a falta de tempo das mães é, ao lado da questão da segurança, o maior obstáculo à brincadeira dos filhos. “As mulheres, de forma geral, são muito sobrecarregadas. Além das pressões externas, existem os conflitos internos, como o pouco tempo para se envolver com os filhos”, escreveu o casal Singer. Quem paga a conta dessa sobrecarga são as crianças.

 

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